Era uma praça como tantas outras existentes em diversas cidades espalhadas pelo mundo. Havia alguns cafés, alguns pubs, algumas crianças correndo entre as pombas, que algumas vezes sequer se davam o luxo de voarem espantadas – frustrando assim os pequenos – e muitas cadeiras espalhadas pelas calçadas. Algumas vezes os mais desatentos não conseguiam distinguir que mesa daquele mar pertencia a qual estabelecimento, tanto que muitas vezes as mesas eram guardadas aleatoriamente pelos donos dos cafés, o que contribuía para que as mesas multicoloridas se misturassem cada dia mais.
Numa das mesas num canto mais afastado estava um casal a conversar. Não que fossem realmente um casal, porém, era um homem e uma mulher a conversar, o que já pode ser denominado como um casal. Estavam ali há quase duas horas e a tarde já se encaminhava para o fim. Para a sorte dos presentes era verão e, portanto, ainda estava bastante claro como se fosem duas ou três da tarde.
- Há quanto tempo já nos conhecemos mesmo? – pergunta a mulher acendendo mais um cigarro – comecei a pensar agora nesse assunto…
O homem pensa um pouco, toma um gole do chope de sua caneca, descruza as pernas e responde desinteressado:
- Não sei, acho que desde a faculdade, sei lá. Faz tanto tempo que eu até esqueci…
- A idade faz cada coisa, não é? – diz a mulher acidamente.
- Olha só quem é que diz – responde ele seguido de um sorriso, e continua – mas porque é que foi pensar nisso logo agora? O que é que está passando pela sua cabeça?
- Não sei, quantas mulheres você conhece que tem esse tipo de amizade com homens?
- Na nossa idade, muitas… – responde dando uma leve risada.
- Seu bobo – diz ela enquanto observa alguns garotos tentando agarrar algumas das pombas da praça – você me entendeu muito bem. A gente se conheceu a, sei lá, quase dez anos, você casou, eu casei, você se separou…
- E você continuou casada… – interrompe ele imitando o jeito de falar dela – mas o que é que isso tem a ver…
- Olha só pra gente, aqui na praça e sozinhos. Sempre sobram duas cadeiras…
- E por que seu marido não vem contigo? – responde o homem secamente.
- Simples, ciúmes. Do mesmo jeito que as suas “ex” que apareciam uma vez por aqui e nunca mais voltavam, só por isso. E tem mais, ele já veio sim comigo uma vez.
- Há quanto tempo mesmo? Uns três ou quatro anos atrás? – comenta com um sorriso irônico o homem.
- Ele não é muito de sair pra conversar. Normalmente quando a gente sai é com algum objetivo específico como um cinema, um restaurante ou para ir comprar alguma coisa. Ele sempre foi assim, nunca gostou muito de sair só por sair.
Enquanto ela falava percebeu seu interlocutor distante. Parou, observou-o por alguns instantes e perguntou:
- Você está me ouvindo?
- Claro – responde ele prontamente, porém, sem olhar diretamente para ela – consigo fazer isso porque tenho ouvidos bons e portanto não preciso ficar olhando pra você como se estivesse lendo seus lábios.
- As vezes você me irrita – diz ela enquanto acende outro cigarro.
- Nasci pra isso – responde ele com um sorriso pacificador – mas pensava que você já tinha se acostumado.
Neste instante os dois se encaram e ficam assim, mudos, por longos momentos. Ele vê que ela já possui alguns fios brancos surgindo com mais intensidade do que há dois ou três anos atrás. Ela vê que ele deixa a barba por fazer mais tempo do que antes, além das mangas puídas da camisa rota.
- Está entardecendo, preciso voltar para casa – diz a mulher quebrando o silêncio.
- É justo – responde ele como se estivesse sozinho, e continua – depois conversamos mais, tomaremos outros cafés…
- Quem sabe amanhã, ou na outra semana… – diz ela enquanto se levanta e acende outro cigarro.
- Talvez noutro semestre, noutro ano, noutra década. – trata de concluir a fala dela antes de tomar os últimos goles de sua caneca, e continua falando em seu ritmo ímpar – Vou continuar por aqui, gosto deste clima claro e não muito quente. Talvez depois vá ao centro, ou às pontes. Gosto da cidade durante a noite.
- Ainda não perdeu a mania de andar sem rumo? Devia tomar mais cuidado com o que faz durante noite.
- Como se você ainda se importasse – diz o homem levantando e espreguiçando-se.
- É sério dessa vez. E você sabe muito bem disso.
Depois disso ela fica de frente para ele e ajeita a gola de sua camisa, além de fechar o último botão da camisa que ele teimava em deixar aberto.
- Obrigado mamãe.
Ela responde com um leve tapinha em seu ombro e diz:
- Se cuida, hein?
- Deixa comigo. – responde o homem abrindo seu sorriso bonachão.
Eles começam a se afastar lentamente.
“Sabia que eu ainda te amo?”
“Quanto?”
“Mais do que imagina.”
“Verdade?”
Ainda a caminhar pelas ruas ele respira profundamente. Olha as estrelas, olha os casais apaixonados a caminhar. Ela chega em casa. Silenciosamente.
“Sério, não acredita?”
“Não é bem assim, mas só agora é que você diz isso, depois de tanto tempo?”
“Eu sou um grande idiota, você sabe. Na verdade nem sei o porquê ter falado isso para ti.”
O marido a beija ternamente e ela retribui. Pensando na conversa daquela tarde. Ele, ainda no centro, caminha com as mãos nos bolsos como se fosse manhã.
“Eu também te amei. Te amo.”
“…”
“Não precisa dizer nada fomos dois bobos. Mas nosso tempo passou, tudo passou. Agora é tarde.”
Ele pensa nela, ela nele.
“Agora é tarde. Inês é morta.”
Ao lado do marido ela adormece. Ele continua caminhando sem rumo a observar a morna vida noturna que o cerca. Os dois sonham: ela dormindo, ele acordado.
“Adeus.”
“Adeus.”
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