Excerto Pedagógico I

“- Porque os alunos estão apáticos? – perguntou o novato ao decano.

- Eles são apáticos. Mas isso não importa nem um pouco…

- Não? Os pais não se preocupam com isso?

- Os pais não querem felicidade, querem ostentação. Nós estamos na instituição mais cara do estado, quem sabe até do país. Se eles quiserem felicidade eles compram.

- E isso não traz algum tipo de mal?

- A eles ou a nós? – questionou o tranquilo e grisalho mestre.

- A todos.

- Se faz mal a eles não me importa nem um pouco. Se faz mal a mim basta lembrar que recebo três vezes mais do que um professor de escola pública no final da carreira.

- E o poder público o que acha? 

- Acha que não deve se meter onde não é chamado. Bem queriam que as escolas públicas contassem com a estrutura e a qualidade que possuímos…

- Qualidade?

- Sim, um terço do legislativo está nas mãos de nossos ex-alunos. No judiciário é quase um quarto. E o atual governador foi meu aluno quando passou por aqui.

- E o que foi ensinado a ele?

- O de sempre: a não se importar, não se apegar.

- Mas isso é errado! – disse exaltado o jovem docente.

- Errado pra você que estudou em escola pública…

- Sim, estudei em escola pública mas mesmo assim estou aqui ensinando!

- Você está aqui ensinando não por ser habilidoso, ou ter boas notas. Está aqui pois durante sua formação foi aquele que melhor acatou as ordens que lhe foram impostas. Você está aqui porque não dará dor de cabeça a direção. Não colocará idéias na cabeça dos alunos.

- Mas, mas…

- Não pense, ensine.

- (…)

- Se quiser durar, não pense nunca, jamais.”

Dia das Mães

Que alegria, o segundo Domingo do mês de Maio é especialmente dedicado em homenagens às progenitoras. É uma das épocas do ano onde mais se vende flores, toda a linha branca de eletrodomésticos e carne, muita carne, afinal, pelo menos uma vez na vida toda família já resolveu anistiar sua mãe do fogão para levá-la a alguma churrascaria. Idéia essa compartilhada por 98,5% da população (Nota: o 1,5% restante das mães ainda estão – em sua maioria – na fila da churrascaria do ano passado).

Este evento tradicional, que coroa o domingo maternal, não é um fato isolado dentro deste tão longo dia. Logo pela manhã a matriarca já é acordada aos berros pelos pimpolhos que – depois de dezenas de referências cinematográficas – resolveram levar-lhe o café na cama. Não que a bandeja venha com flores e várias frutas, ou que haja bandeja pelo menos… A mãe, no susto, bate os braços na travessa que continha uma caixa e meia de sucrilhos e nada menos do que um litro de leite (café extremamente bem reforçado para uma doméstica não assalariada). Uma vez que existe cereal matinal até na alma dos presentes toda a roupa de cama deve ser levada para a lavanderia (na esperança que os “Duendes da Limpeza” ou a “Dona Neura” apareçam pra limpar tudo aquilo). Enquanto ela toma um belo e quente banho – para se livrar do resultado da hidratação – a revelia – a base de leite – o maridão coloca com todo cuidado sobre a cama já arrumada um belo ramalhete acompanhado daquela famosa caixa de bombons em formato de coração e logicamente enquanto preparava tal surpresa deixou os “presentinhos de deus” sozinhos no outro banheiro…

Para sua surpresa, ao sair do quarto vê duas nuvens de espuma passarem correndo pelo corredor e vai atrás delas até que ouve um grito agoniado vindo do quarto. Era a mãe. Saindo renovada do banho vê o cachorro terminar de estraçalhar as rosas depois de se refestelar com o chocolate. O pai, seguido de dois montinhos nus de espuma chegam ao quarto e vêem a desoladora cena. Como consolo o ‘Macho Alfa’ daquele grupo tem uma grande idéia: levar a família para almoçar fora (todos menos o cachorro que é uma bolinha de pêlos, sucrilhos, rosas e chocolate).

Na terceira churrascaria que param resolvem enfrentar a fila que existe ali, afinal, já passaram por quatro pizzarias, três restaurantes – sendo um chinês – e duas churrascarias, com filas de espera de mais de quarenta minutos.

A disposição, toda variedade digna de qualquer grande matriarca contemporânea, muita salada crua (a única coisa que restou no buffet), e muita carne que deveria ter ficado mais tempo na brasa, ou passado por algum tipo de cocção, no mínimo. Depois de muitos pisões no pé, oferecidos gratuitamente pelos demais petizes existentes no local – que teimavam em correr desesperadamente – e também muitos jogos de corpo dados pelas matriarcas mais “avantajadas” querendo aqueles últimos ovos de codorna esquecidos em uma bandeja no canto das saladas…

De volta ao lar, esgotados, cansados, doloridos e ainda com certa fome, a mãe se larga no sofá torcendo para que mais nada de ruim lhe aconteça. É neste instante que seu dia transforma-se: os dois pimpolhos vêm em sua direção com artefatos manuais e desenhos produzidos na escola. Por mais torpe que possa parecer aquela criação (Não mamãe, não é um pegador de panelas, é um marcador de páginas!), ela percebe que é querida, amada, respeitada por sua família. Até o pai vem até ela com um pacote maior que aquele das crianças (e, para sua alegria, totalmente manufaturado) que, quando aberto, revela-se um jogo de panelas de última geração…

É nesse instante que ela se lembra do que já dizia a mãe dela na ocasião do casamento: Minha filha, só existem dois tipos de mãe: aquelas que já ganharam panelas e aquelas que ainda ganharão!

Assim que ela volta do susto já ouve sua família perguntando o que tinha pra comer, e sua rotina volta ao normal antes que seu dia de homenagens termine.

84ª Cerimônia de Premiação do Oscar

Mais um ano e mais uma vez a Academia se reúne para premiar os melhores de 2011. A seguir segue a lista de indicações nas categorias premiadas este ano:

Melhor filme

Os Descendentes

A Árvore da Vida

Histórias Cruzadas

A Invenção de Hugo Cabret

O Homem Que Mudou o Jogo

Cavalo de Guerra

O Artista

Meia-Noite em Paris

Tão Perto e Tão Forte

Melhor ator

George Clooney – Os Descendentes

Brad Pitt – O Homem Que Mudou o Jogo

Jean Dujardin – O Artista

Demián Bichir – A Better Life

Gary Oldman – O Espião que Sabia Demais

Melhor atriz

Glenn Close – Albert Nobbs

Viola Davis – Histórias Cruzadas

Rooney Mara – Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres

Meryl Streep – A Dama de Ferro

Michelle Williams – Sete Dias com Marilyn

Melhor ator coadjuvante

Kenneth Branagh -Sete Dias com Marilyn

Nick Nolte – Guerreiro

Max Von Sidow – Tão Perto e Tão Forte

Jonah Hill – O Homem Que Mudou o Jogo

Christopher Plummer – Toda Forma de Amor

Melhor atriz coadjuvante

Bérénice Bejo – O Artista

Jessica Chastain – Histórias Cruzadas

Janet McTeer – Albert Nobbs

Melissa McCarthy – Missão Madrinha de Casamento

Octavia Spencer – Histórias Cruzadas

Melhor diretor

Woody Allen – Meia-Noite em Paris

Terrence Malick – A Árvore da Vida

Alexander Payne – Os Descendentes

Michel Hazanivicous – O Artista

Martin Scorsese – A Invenção de Hugo Cabret

Melhor roteiro adaptado

A Invenção de Hugo Cabret

Tudo pelo Poder

Os Descendentes

O Espião que Sabia Demais

O Homem Que Mudou o Jogo

Melhor roteiro original

Meia-Noite em Paris

O Artista

Margin Call – O Dia Antes do Fim

Missão Madrinha de Casamento

A Separação

Melhor filme em lingua estrangeira

A Separação (Irã)

Bullhead (Bélgica)

Monsieur Lazhar (Canadá)

Footnote (Israel)

In Darkness (Polônia)

Melhor longa animado

Gato de Botas

Kung Fu Panda 2

Rango

Um Gato em Paris

Chico & Rita

Melhor trilha sonora original

As Aventuras de Tintim

O Artista

O Espião que Sabia Demais

A Invenção de Hugo Cabret

Cavalo de Guerra

Melhor canção original

“Man or Muppet” – Os Muppets

“Real in Rio” – Rio

Melhores efeitos visuais

Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2

A Invenção de Hugo Cabret

Gigantes de Aço

Planeta dos Macacos – A Origem

Transformers: O Lado Oculto da Lua

Melhor maquiagem

Albert Nobbs

Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2

A Dama de Ferro

Melhor fotografia

Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres

O Artista

A Invenção de Hugo Cabret

A Árvore da Vida

Cavalo de Guerra

Melhor figurino

Anônimo

O Artista

A Invenção de Hugo Cabret

Jane Eyre

W.E. – O Romance do Século

Melhor direção de arte

O Artista

Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2

A Invenção de Hugo Cabret

Cavalo de Guerra

Melhor documentário

Hell and Back Again

If a Tree Falls

Paradise Lost 3: Purgatory

Pina

Undefeated

Melhor documentário de curta-metragem

God is the Bigger Elvis

The Barber of Birmingham: Foot Soldier of the Civil Rights Movement

Incident in New Baghdad

Saving Face

The Tsunami and the Cherry

Blossom

Melhor montagem

Os Descendentes

O Artista

Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres

O Homem Que Mudou o Jogo

A Invenção de Hugo Cabret

Melhor curta

Pentecost

Raju

The Shore

Time Freak

Tuba Atlantic

Melhor curta animado

Dimanche

The Fantastic Flying Books of Mister Morris Lessmore

La Luna

A Morning Stroll

Wild Life

Melhor edição de som

Drive

Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres

Cavalo de Guerra

A Invenção de Hugo Cabret

Transformers: O Lado Oculto da Lua

Melhor mixagem de som

Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres

Cavalo de Guerra

A Invenção de Hugo Cabret

Transformers: O Lado Oculto da Lua

O Homem Que Mudou o Jogo

Agora é com vocês, façam suas apostas! A cerimônia é hoje a noite e vai ser retransmitida ao vivo pela maioria das emissoras de televisão que se prezem.

Bem vindos de volta!

O Mestre de Cerimônias

A Suíte mudou. Continua Arcaica, porém está muito melhor.

Sejam todos muito bem vindos de volta a nova Suíte Arcaica! Como puderam perceber mudamos realmente TUDO. Sem mais demora vamos para as novidades:

1 - Agora o bom e velho Vladimir Ismael (see ‘sobre‘) – vulgo “Ismenz” – é o Editor/ Administrador da Suíte. O que quer dizer que a variedade da Suíte vai diminuir um pouco, momentaneamente, mas a quantidade não…

2 - Categorias: são seis novas. Isso quer dizer que você não precisa ficar procurando pelas tags (que não existem mais), ou pela busca o seu assunto favorito. Clicou lá, leu, comentou e foi pra galera.

3 - Vou explicar resumidamente as seis categorias: Editorial: toda semana terá um texto novo (e possivelmente uma enquete); Seriado: são textos – semanais também, porém mais leves, no formato folhetim; Cinema: falaremos basicamente sobre as estréias, os clássicos e as salas; Estréias: Um link para os filmes que estréiam esta semana na rede Cinemark; Veja 10+: Um link para a lista com os 10 livros mais vendidos da semana; Feriados: crônicas cujo assunto principal são os feriados (logicamente).

4 - À direita – no espaço laranja – tem o feed, twitter e facebook. Se quiser podem me encontrar por lá.

5 - Links, a Suíte está conectada. Bastante conectada. Muitos entrarão neste círculo, e muitos assuntos terão início nesta Suíte.

6 - Agora também além de administrador da Suíte Arcaica, participo também do Project Saymenz junto com o Sayman (onde falamos de tecnologia, games e nerdices).

É isso. Sejam muitíssimo bem vindos de volta e espero que gostem muito de tudo que foi feito por aqui.

Desabafo

Atualmente todo texto se inicia do mesmo modo: com o cursor encarando o escritor. A “página” em branco e o cursor piscando impaciente, desafiador. Este é o último mês do ano de 2011, que para muitos – inclusive este que escreve – foi um ano longo, longuíssimo. Devo confessar, pela primeira vez creio eu, que estou cansado, realmente muito cansado. Nascer num país onde sua cor é mais importante do que seu Q.I. de 124 pontos; onde tudo o que você faz não tem importância quando você não é amigo da “realeza”; e no final das contas, mesmo transformando a realidade onde se está inserido você é tratado como uma peça intercambiável, desgasta, chateia, enfraquece.

Lembrei agora de uma cena do filme do homem-aranha onde ele pára um trem e é amparado pelas pessoas que estavam lá dentro: um herói que é salvo por “heróis”. Desde o início do meu exílio involuntário, fui consolado das mais diversas formas por todos aqueles que me conheciam, todos aqueles que já viram o resultado de meus trabalhos em algum lugar e conhecem minhas habilidades (musicais, literárias, pedagógicas…)

Este ano foi incomum, não ouvi o meu instinto, e me dei mal, tive o tapete puxado por supostos aliados, expandi minha rede de contatos, cheguei as raias da sanidade humana, fui corporativista, mas não foram comigo, produzi conhecimento, fui significativamente importante, agi de boa fé, e dei vazão para ser vítima da má fé pública…

Sabe o que me chateia mais? Não é o que fazem comigo, afinal, o sofrimento é o alimento dos criadores, mas como as pessoas por interesse próprio passam por cima dos outros. Devo admitir que tive vontade de quebrar alguns narizes quando vi meus alunos a chorar, desolados. Descobriram que minha pessoa é inabalável a maior parte das ameaças e intervenções administrativas, mas os meus alunos e os meus professores não e por este motivo fizeram com que sofressem por mim e, por consequência, me fizeram sofrer a distância. Em duas semanas vão me dizer se vou ou se fico. E sabe o que é mais interessante? Não importa. O medo passou, a angústia acabou, a dor diminuiu, o sofrimento é só uma lembrança do que realmente já foi. O que eu tenho é saudade: das tardes tomando chá, das conversas animadas, das piadinhas infames, das refeições compartilhadas.

O rancor não habita meu ser. Somente o senso de justiça que cresce a cada dia.

Aos heróis que salvaram este herói muitíssimo obrigado, não sabem como foram importantes nesta jornada.