Cria corpos

estava ele na frente de seu computador quando, quebrando o silêncio sepulcral de sua sala, o telefone toca. Do outro lado da linha uma voz nervosa fala alto, em contraste com a mansidão e o sossego que o atendem:

- E aí, Capela, como é que é? Este texto sai ou não sai?

- Fica tranqüilo, Suzano, semana que vem te entrego tudo pronto, do jeito que te prometi…

- É sempre assim! Sempre assim! Você vive enrolando as pessoas não é cara? Não é a primeira vez que você me vem com essa conversa de “semana que vem te entrego tudo”.

- E quantas vezes eu falhei? Nenhuma.

- Mesmo assim. Porque é que meu texto ainda não está pronto, hein?

- Porque estou perdendo meu tempo no telefone, como sempre…

- As cinco da tarde passo aí pra pegar meu texto. Por bem ou por mal.

Logo em seguida a conversa é terminada sem que o interlocutor pudesse dizer algo em sua defesa. Essa era a rotina de Eduardo Capela, escritor. Mesmo não gostando muito de criar peças para teatro era o que mais lhe rendia financeiramente, por isso não recusava trabalho algum, principalmente aqueles encomendados por Francisco Suzano, um dos diretores mais chatos do país, que vira e mexe sempre ligava para os escritores para atormentá-los, apressa-los, ou simplesmente tirá-los do sério.

Assim que desligou o telefone Capela resolveu buscar uma xícara de café. “Esticar as pernas é sempre bom antes de criar algo”, pensava ele se dirigindo para a cozinha. “Quantas vezes eu já criei pro Suzano? Há quantos anos eu escrevo? Teatro, cinema, jornal, revista, universidades… Só me falta engatar na literatura, mas assim que eu tirar um folga passo meus livros pro papel”.

Encostado na pia com uma caneca de café na mão Capela pensava no que poderia fazer pra deixar Suzano feliz. Riu da idéia que bastaria recebe-lo nu para que ficasse satisfeito. “Infelizmente não são nenhum surfista descerebrado com aspirações para ator”, concluiu ele passando uma das mãos pelos volumosos cabelos cacheados. Apoiou a caneca na pia e sacou de um dos bolsos do jeans um cigarro. Olhou em volta procurando um isqueiro até que localizou-o sobre a geladeira. Deu algumas baforadas e decidiu que era hora de terminar a lição de casa.

De volta a sala começou a idealizar tramas e personagens. Inicialmente histórias sem sentido, confusas, escuras, depois enredos mais coesos, bem acabados. Não era o ritmo que gostava de utilizar, sempre era vítima de algum insight que, mesmo bruto, conseguiria lapidar e transformar numa bela obra de arte.

Drama. Uma jovem vaga sozinha pela noite em busca de auxílio. No caminho encontra um velho lenhador, uma jovem moça de luto e um garoto que sequer nota sua presença. No final percebe que ela estava morta e os três que cruzaram seu caminho eram respectivamente seu pai que não sabia de sua morte pois a abandonara depois de seu nascimento, sua irmã caçula que encontrava-se num convento e seu filho que jamais nasceria.

Olhando as páginas manuscritas com uma certa desconfiança resolveu deixar aquela história de lado por algum tempo. “Quem sabe daqui a alguns anos ela não pudesse ver a luz do dia?”

Comédia. Numa repartição pública um grupo de funcionários percebe que seu departamento pode ser diluído se não se enquadrar nas normas estabelecidas pelo governo. Como todos os funcionários querem manter o status quo e assim evitar maiores atribuições resolvem por promover o estagiário para chefe de gabinete e assim torná-lo laranja. O problema é que ele já fazia parte de um outro esquema maior formado por seu pai, o Senador, e cada um naquele departamento também tinha o rabo preso com algum funcionário de primeiro escalão. No final resolvem deixar tudo do jeito que está e esperar por uma vistoria que, por experiência própria, nunca virá.

Sua frustração com aquela comédia é maior do que com o drama que escrevera antes. Por sorte ele é capaz de criar a partir de clichês, dando novas roupagens a velhos temas. Foi com esse intuito que ele resolveu escrever o próximo texto.

Romance. São dois jovens que se conhecem por acaso e se apaixonaram a primeira vista. Infelizmente estoura uma guerra, ele é convocado e os dois se separam. Nesse meio tempo ele é dado como morto e ela acaba se casando com outro homem. Vinte e poucos anos depois ela, viúva, reencontra o grande amor de sua vida e os dois vivem felizes para sempre.

Musical. Dois amigos crescem juntos numa cidade do interior porém seu grande sonho é estrelar um musical numa cidade grande. Decididos a vencer na vida deixam sua cidade natal para trás e partem rumo à capital. Lá cada um segue um caminho diferente: um se torna um grande ator do teatro musical, o outro sucumbe ás drogas, e ao crime.

Infantil. Uma fábula onde seres inanimados ganham vida para poder tirar um feitiço colocado em um príncipe transformado em sapo e fazer com que ele se case com a bela princesa degregada de seu reino pela madrasta malvada. Enquanto tentam alcançar seus objetivos os “seres mágicos” passa uma série de valores como respeito, bondade, perseverança e amor para com o próximo.

De repente o som ritmado do relógio chama sua atenção. Faz três horas que ele está ali escrevendo aleatoriamente. Foram peças de vários gêneros, algumas boas outras ruins. Vários ensaios literários, resenhas de toda sorte, uma profusão de escritos de fazer inveja a todo filho de Letras, mas a peça que serviria para deleitar Suzano ainda não havia vindo a luz.

Insight.

Um jovem artista sofre um bloqueio criativo. Desesperada com o sucesso de sua nova produção a noiva do jovem e seu ajudante tentam, em vão, auxilia-lo. Após uma briga com sua noiva o artista e seu ajudante se retiram para o campo, no entanto, durante a viagem um velho mecenas inescrupuloso tenta de todo modo impedir que os dois cheguem a seu destino. Chegando a pequena cidade isolada, algumas jovens tentam seduzir os recém chegados, porém, a fidelidade ao seu grande amor faz com que o artista permaneça fiel a sua noiva que, mesmo contra a vontade dele, o seguiu até ali para dar-lhe suporte. Seu ajudante acaba cedendo aos encantos de uma jovem local, o velho mecenas acaba com a idosa dona de uma estrebaria e o jovem, ao lado da mulher que ama percebe – durante um insight – que deve escrever sobre o amor entre as pessoas.

Em menos de duas horas o texto já está pronto, e as pequenas canções que existem em algumas cenas também. Assim que Capela começa a imprimir o texto a campainha toca. É Suzano.

-E então meu jovem, tem algo para mim? – diz o homem grisalho com desdém.

Capela pega as folhas impressas, as partituras manuscritas e entrega todo chumaço ao homem em pé na porta, que fica espantado.

- Como? Como pôde? – balbucia atônito o diretor.

- Ou muito me engano, ou o gênio aqui sou eu certo? Eu te disse antes e repito: eu sempre consigo.

E antes de fechar a porta na cara de Suzano emenda:

- E não se esqueça do meu cheque, hein? Passar bem…

Dentro do apartamento um jovem criador com a alma lavada dá um longo suspiro e olha ao redor, para as pilhas de papéis manuscritos. “É hora de começar o rescaldo. Enterrar as princesas, os amantes, as madrastas, os feiticeiros, a realeza e os músicos. Essa é a pior parte de um criador de corpos…”

Sobre Ismenz

Um escritor. Um professor. Aquele que fomenta. O homem de São Paulo.

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