Atualmente todo texto se inicia do mesmo modo: com o cursor encarando o escritor. A “página” em branco e o cursor piscando impaciente, desafiador. Este é o último mês do ano de 2011, que para muitos – inclusive este que escreve – foi um ano longo, longuíssimo. Devo confessar, pela primeira vez creio eu, que estou cansado, realmente muito cansado. Nascer num país onde sua cor é mais importante do que seu Q.I. de 124 pontos; onde tudo o que você faz não tem importância quando você não é amigo da “realeza”; e no final das contas, mesmo transformando a realidade onde se está inserido você é tratado como uma peça intercambiável, desgasta, chateia, enfraquece.
Lembrei agora de uma cena do filme do homem-aranha onde ele pára um trem e é amparado pelas pessoas que estavam lá dentro: um herói que é salvo por “heróis”. Desde o início do meu exílio involuntário, fui consolado das mais diversas formas por todos aqueles que me conheciam, todos aqueles que já viram o resultado de meus trabalhos em algum lugar e conhecem minhas habilidades (musicais, literárias, pedagógicas…)
Este ano foi incomum, não ouvi o meu instinto, e me dei mal, tive o tapete puxado por supostos aliados, expandi minha rede de contatos, cheguei as raias da sanidade humana, fui corporativista, mas não foram comigo, produzi conhecimento, fui significativamente importante, agi de boa fé, e dei vazão para ser vítima da má fé pública…
Sabe o que me chateia mais? Não é o que fazem comigo, afinal, o sofrimento é o alimento dos criadores, mas como as pessoas por interesse próprio passam por cima dos outros. Devo admitir que tive vontade de quebrar alguns narizes quando vi meus alunos a chorar, desolados. Descobriram que minha pessoa é inabalável a maior parte das ameaças e intervenções administrativas, mas os meus alunos e os meus professores não e por este motivo fizeram com que sofressem por mim e, por consequência, me fizeram sofrer a distância. Em duas semanas vão me dizer se vou ou se fico. E sabe o que é mais interessante? Não importa. O medo passou, a angústia acabou, a dor diminuiu, o sofrimento é só uma lembrança do que realmente já foi. O que eu tenho é saudade: das tardes tomando chá, das conversas animadas, das piadinhas infames, das refeições compartilhadas.
O rancor não habita meu ser. Somente o senso de justiça que cresce a cada dia.
Aos heróis que salvaram este herói muitíssimo obrigado, não sabem como foram importantes nesta jornada.